Aquilo que muitos cientistas vinham apontando foi finalmente reconhecido pela ONU na 4ª feira (2/9). Nos próximos anos, o aumento da temperatura média global deve superar o limite de 1,5oC, meta mais ambiciosa do Acordo de Paris. A falta de ambição dos governos e de reduções substanciais e imediatas das emissões de gases de efeito estufa (GEE) pode colocar o clima global em uma trajetória disruptiva, com efeitos devastadores, especialmente para as comunidades mais pobres e vulneráveis. Mas há esperança.
O novo relatório do Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre o chamado overshoot – período em que o aquecimento global ultrapassa temporariamente 1,5 °C – trouxe projeções sobre os cenários potenciais de elevação da temperatura média global para as próximas décadas. No melhor cenário, em que as metas climáticas (NDCs) dos países são cumpridas, bem como as metas de descarbonização líquida zero (net-zero), a temperatura da atmosfera deve chegar a 1,8°C acima dos níveis pré-industriais. Nos demais cenários, o pico de aquecimento supera 2oC, o limite máximo do Acordo de Paris.
A temperatura média acima de 1,5oC trará impactos preocupantes para o clima e a biodiversidade. Entre os impactos previstos estão eventos extremos mais intensos e frequentes, a perda de ecossistemas e a submersão de pequenas nações insulares e de cidades costeiras de baixa altitude. Além disso, esperam-se efeitos negativos sobre a saúde humana, a segurança alimentar e hídrica, as infraestruturas urbanas e as economias como um todo.
“O calor escaldante deste verão [no Hemisfério Norte], os incêndios florestais devastadores e as inundações mortais são um alerta sobre o que está por vir. Devemos fazer com que o aumento da temperatura além de 1,5oC seja o menor e mais breve possível. Isso exige uma ambição ainda maior”, defendeu o secretário-geral da ONU, António Guterres.
A ultrapassagem de 1,5oC não tem uma data definida, mas deve acontecer até o final desta década, segundo o PNUMA. Apesar disso, os países podem encurtar a duração desse rompimento, fazendo com que a temperatura média volte a ficar abaixo de 1,5oC o mais rápido possível. Para isso, é urgente reduzir as emissões de GEE na maior medida possível.
“Entramos numa era de consequências, como a tragédia da última semana no Nepal deixou claro, e nenhum governo do planeta está preparado para o que enfrentaremos nas próximas décadas”, ressaltou Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima. “É hora de começar a falar sério sobre adaptação e cobrar dos países ricos recursos para as perdas e danos das nações mais pobres.”
O relatório reconhece a remoção de carbono da atmosfera como um complemento das reduções das emissões de GEE – e não como um substituto, como as petrolíferas insinuam para defender tecnologias caras e ineficientes de captura e estocagem de carbono. Mesmo assim, diz o PNUMA, as remoções, principalmente por meio de reflorestamento, só poderão contribuir de forma confiável para um retorno da temperatura global a níveis abaixo de 1,5oC se o pico de aquecimento permanecer bem abaixo de 2oC.
Apesar das recomendações para encurtar o período de overshoot, a sinalização do PNUMA foi considerada tímida por alguns especialistas. Bill Hare, diretor da Climate Analytics e ex-integrante do Painel da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criticou a falta de atenção do relatório para apontar a eliminação dos combustíveis fósseis como crucial para qualquer trajetória de recuperação do limite de 1,5oC. O documento também não cita a iniciativa dos países que se engajaram na construção de “mapas do caminho” para acabar com a dependência de combustíveis fósseis e com o desmatamento, iniciada na COP30 em Belém, no ano passado.
“A omissão de algumas análises de mitigação de importância fundamental pode transformar [o relatório] em um apelo à apatia, em vez de um chamado à ação”, observou, citado pela Folha.
O relatório do PNUMA sobre o overshoot teve grande repercussão na imprensa nacional e internacional, com matérias em ANSA Brasil, CNN Brasil, DW, Estadão, Exame, g1, O Globo e Projeto Colabora, além de AFP, AP, Bloomberg, Financial Times, Guardian, New York Times e Reuters.





