Desmatamento pode transformar a Amazônia em savana, mostra estudo

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Desmatamento pode transformar a Amazônia em savana, mostra estudo

A Amazônia pode chegar a um ponto crítico de degradação mais rápido do que o estimado previamente, mostrou um estudo publicado na revista Nature e conduzido pelo Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam (PIK) com a participação do climatologista Johan Rockström. O estudo analisa duas variáveis que costumavam ser medidas separadamente: as taxas de desmatamento e de aquecimento global.

A pesquisa reúne projeções climáticas, modelagem hidrológica e análises do transporte de umidade atmosférica. Assim, monitora como o aumento das temperaturas e o avanço do desmatamento atuam simultaneamente sobre a Floresta Amazônica, explicam Exame e Instituto Humanitas Unisinos.

O estudo compara diversos cenários, com e sem a variável do desmatamento, para mensurar seu peso. Em um cenário sem desmate, a temperatura média global precisaria aumentar entre 3,7°C e 4°C para que a Amazônia atingisse um ponto de não retorno. Isso causaria um processo de savanização em uma área entre 62% e 77% da floresta.

Mas o cenário de desmatamento zero ainda não existe. Considerando o desmatamento, a temperatura só precisaria aumentar entre 1,5°C e 1,9°C para chegarmos ao mesmo resultado.

Atualmente, a perda de vegetação já é de quase 18% da floresta, o que aproxima o bioma de uma zona de instabilidade, destacam Mongabay e El Salto Diario. Caso se mantenha constante, o percentual de supressão deve ficar entre 22% e 28%. Combinando com o fator de aquecimento, o ponto de não retorno será atingido antes do previsto.

Para o biólogo Bernardo Flores, do Instituto Juruá e da Universidade de Santiago de Compostela, que também assina o artigo, o estudo reafirma a importância da luta contra o desmate na Amazônia, pois o “desmatamento é mais fácil de controlar [do que o aquecimento]”. “O estudo deixa claro que é importante manter a Amazônia bem longe desses 22% de supressão da vegetação. E isso se faz combatendo a grilagem, o fogo, o crime organizado, com muita governança local”, afirmou ao Observatório do Clima.

Segundo os pesquisadores, até metade da chuva que cai na Amazônia depende da evapotranspiração das árvores da floresta. Se o mecanismo perde força, os impactos podem ser sentidos em partes distantes da vegetação. “Regiões a centenas ou até milhares de quilômetros podem perder resiliência devido a efeitos de seca em cascata”, afirma Arie Staal, da Universidade de Utrecht e coautor do estudo.

Na CNN Brasil, Carlos Nobre, professor da Cátedra Clima e Sustentabilidade da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, aponta que, além das metas de desmatamento e degradação zero e de eliminação de incêndios provocados pelo homem até 2030, é necessário fortalecer a restauração florestal em larga escala. Principalmente no sul da Amazônia, que apresenta os maiores índices de desmatamento e onde a estação seca é de 4 a 5 semanas mais longa do que há 40 a 45 anos.