O feriado do Dia do Trabalhador foi marcado por chuvas em um volume que, mais uma vez, a infraestrutura urbana não deu conta de absorver em diversas regiões do país. No Recife (PE), deslizamentos de barreira em decorrência dos temporais deixaram seis mortos na Região Metropolitana, e o estado contabilizou 1.906 desabrigados. No Rio Grande do Sul, na mesma noite, o município de Rosário do Sul registrou 324 mm de chuva em sete horas – três vezes a média histórica para todo o mês de maio.
Os dois eventos aconteceram ao mesmo tempo, produzidos por sistemas atmosféricos completamente diferentes. No Nordeste, houve a combinação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) com os Distúrbios Ondulatórios de Leste, ou Ondas de Leste (DOL), que se propagam do oceano para o continente no outono. No Sul, foi uma frente fria associada a um ciclone extratropical.
Como semelhança entre os eventos, apenas a capacidade de ambos de expor a fragilidade das cidades brasileiras às mudanças climáticas. Isso mesmo sem a chegada do El Niño, que se torna cada vez mais provável de ocorrer em 2026 – e em um nível histórico.
População cada vez mais vulnerável aos extremos climáticos
Em Pernambuco, 27 cidades decretaram situação de emergência. Recife, capital do estado, registrou 671 desabrigados; Olinda, 170; Goiana, 146. Houve registros de pessoas que precisaram deixar suas casas também em outros municípios pernambucanos, como Camaragibe, Igarassu, Limoeiro, Paulista e Timbaúba. No total, 1.906 pessoas ficaram desabrigadas. Os números são do balanço de domingo (3/5) e podem subir se a chuva voltar – e há previsões para que isto ocorra até o fim de semana.
Na Paraíba, o governador Lucas Ribeiro (PP) decretou calamidade pública já na 6ª feira (1°/5). Em Guarabira, dois homens morreram eletrocutados quando um fio eletrizado entrou em contato com uma poça d’água. Em Ingá, uma ponte foi parcialmente rompida. Trechos das rodovias PB-032, PB-054 e BR-230 ficaram intransitáveis. Alhandra, Pilar, Mogeiro e São José dos Ramos registraram volumes recordes – 191 mm, 170 mm, 117 mm e 128 mm respectivamente – todos acima dos maiores índices dos últimos 30 anos.
No Sul, a chuva concentrou-se na fronteira oeste e na região central. Além dos 324 mm em sete horas em Rosário do Sul – com 225 casas alagadas e 512 pessoas desalojadas -, São Gabriel registrou acumulado de 200 mm, e 21 famílias precisaram deixar suas casas. A RS-348, entre Faxinal do Soturno e Ivorá, ficou totalmente bloqueada após o Arroio Guarda-Mor danificar um desvio provisório. A BR-290 chegou a ser interditada no km 353. Dezenove municípios relataram estragos à Defesa Civil estadual.
O saldo até domingo, 3 de maio: dez mortos, ao menos três desaparecidos, mais de dois mil desabrigados no Nordeste e centenas no Sul.
“É importante destacar que os impactos não dependem apenas da intensidade da chuva. Eles estão diretamente relacionados à exposição e à vulnerabilidade da população. Hoje temos um cenário em que mais pessoas vivem em áreas de risco, o que acaba ampliando os impactos desses eventos”, explica Henri Pinheiro, meteorologista da Sala de Situação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O que a ciência diz sobre eventos climáticos semelhantes
Sobre as causas das chuvas extremas no Nordeste, Pinheiro descreve uma combinação de fatores. Um dos principais, segundo ele, é o aquecimento das águas do Atlântico Tropical, que aumenta a umidade na atmosfera e intensifica as nuvens de chuva. Há também a presença da ZCIT, que nessa época do ano favorece a atuação de sistemas de chuva, e a atividade dos DOL, responsáveis diretos pelos eventos.
“Já no Sul do Brasil, a situação foi um pouco diferente. Houve chuvas volumosas, mas associadas a um sistema frontal, basicamente, uma frente fria, que é um sistema meteorológico ligado ao contraste entre massas de ar quente e frio”, explica.
Estudos de atribuição levam semanas para ficarem prontos, no melhor dos cenários. Mas é possível olhar para o que já foi analisado e perguntar se os padrões se repetem. E com que frequência. É essa equação – maior intensidade e frequências cada vez mais menores para repetição de eventos extremos – que mostra o impacto das mudanças climáticas.
Em maio de 2022, por exemplo, o Nordeste viveu algo parecido com o que acontece agora. Partes de Pernambuco registraram 70% do volume de chuva esperado para o mês inteiro em menos de 24 horas. Foram 133 mortos e 25 mil desabrigados em cinco estados. Foi o primeiro evento extremo no Brasil a passar pela análise do World Weather Attribution (WWA).
A conclusão: as chuvas foram cerca de 20% mais intensas do que teriam sido num planeta sem aquecimento global. Também ficaram mais prováveis. Entender o mecanismo físico ajuda a compreender as consequências: uma atmosfera mais quente retém mais vapor d’água. Quando os sistemas atmosféricos convergem, esse vapor vira chuva mais rápido e em volume maior.
Em 2022, a ZCIT não estava no quadro. As chuvas foram produzidas quase inteiramente pelos DOL, os Distúrbios Ondulatórios de Leste, que chegam do oceano e descarregam umidade no litoral. Agora, os dois sistemas estão ativos ao mesmo tempo. Na prática, isso quer dizer mais umidade disponível e menos espaço para a tempestade se dissipar.
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul teve, em 11 dias, mais de 420 mm de chuva, com 90% do território afetado. O WWA analisou o evento e chegou a uma conclusão mais contundente do que em 2022 no Nordeste: a crise climática mais que dobrou a probabilidade de um evento daquele tipo, além de ter tornado as chuvas de 6% a 9% mais intensas.
O que tornou 2024 diferente de 2022, além da escala, foi o contexto: havia um El Niño em declínio. A combinação das mudanças climáticas com o El Niño tornou o evento de 2 a 5 vezes mais provável e 3% a 10% mais intenso do que teria sido sem o fenômeno.
O (Super) El Niño que ainda não chegou
A Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou em abril o aquecimento gradual do Pacífico equatorial. A probabilidade de formação deEl Niño no trimestre entre maio e julho passou de 45% para mais de 70%. Os modelos europeus (ECMWF) são mais agressivos na projeção de intensidade do que os estadunidenses, com alguns cenários chegando a +3°C de anomalia na região Niño 3.4, no Pacífico central-equatorial, o que caracterizaria um Super El Niño – algo que só aconteceu três vezes nos últimos 140 anos. O pico está projetado para o fim de 2026, com efeitos que podem se estender até 2027.
Para o Sul do Brasil, isso significa risco elevado de enchentes e temporais na primavera, num momento em que os reservatórios ainda não terão se recuperado e o solo continuará saturado por um outono como o que estamos vendo agora. Para o Nordeste, o cenário é o oposto: o El Niño tende a reduzir a chuva na região. O que pode parecer alívio depois de um maio como este, mas representa um problema diferente: manter os reservatórios em níveis adequados depois da seca que vem.
Na época do lançamento do estudo do WWA sobre o RS, o pesquisador Lincoln Alves, do INPE, disse: “O que aconteceu confirma que as atividades humanas contribuíram para eventos extremos mais intensos e frequentes, e que esse é o novo normal”.
A necessidade da adaptação climática
Entre 1991 e 2023, o Brasil registrou mais de 26 mil desastres climáticos relacionados a chuvas, com mais de 91 milhões de pessoas afetadas. Na década de 1990, o número de atingidos por ano girava em torno de 400 mil. Entre 2020 e 2023, foram 31,8 milhões. Os cientistas atribuem a aceleração às mudanças climáticas, e dizem que ela tende a piorar.
Do ponto de vista econômico, entre 1995 e 2023, mais de 34 milhões de unidades de bens e infraestrutura foram danificadas ou destruídas no país por causa de chuvas, com prejuízo de R$ 146,7 bilhões. Só as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 custaram R$ 88,9 bilhões, quase dois terços do prejuízo acumulado em quase três décadas, num único evento. Economistas afirmam que cada real não investido em adaptação hoje vira muitos reais a mais em reconstrução depois.
Diante disso, urbanistas e pesquisadores apontam caminhos para adaptar as cidades brasileiras e reduzir os custos em vidas e em orçamento público. Entre eles, planejamento urbano adequado, sistemas avançados de alerta meteorológico e Soluções Baseadas na Natureza, ou SBN. Algumas dessas soluções já rodam em projetos-piloto pelo Brasil, e deveriam orientar a reconstrução de municípios como os atingidos pelas chuvas do feriado.
“O Cemaden emitiu dezenas de alertas para as áreas afetadas, incluindo alertas de nível muito alto, uma situação pouco comum, geralmente associada a eventos muito graves, indicando risco elevado e necessidade de ações imediatas”, conta Pinheiro. “O principal desafio ainda está na etapa seguinte ao alerta: a resposta local por meio das defesas civis. Isso envolve desde a articulação entre os órgãos até a execução dos planos de contingência, como a evacuação de áreas de risco”.
Os eventos de maio de 2026 estão acontecendo antes do El Niño chegar. Quando ele chegar, vai encontrar uma realidade em que menos de 13% das cidades brasileiras têm instrumentos legais e estrutura institucional minimamente adequados para iniciar políticas de adaptação, e em que a meta do governo federal é chegar a 35% dos municípios com Planos de Adaptação até 2035. Se a ciência afirma que a mudança do clima só tende a intensificar os eventos extremos que estamos enfrentando, a adaptação climática deveria ser uma das pautas centrais do debate climático. Inclusive – e principalmente – nas eleições de outubro.
Dados gerais
- 10 mortos e ao menos 3 desaparecidos por conta das chuvas nos primeiros quatro dias de maio de 2026, nas regiões Nordeste e Sul.
- Mais de 2.000 pessoas desabrigadas só em Pernambuco e na Paraíba.
- Rosário do Sul (RS) registrou 324 mm em apenas sete horas, volume que levaria semanas para ser absorvido em condições normais.
- Municípios da Paraíba como Alhandra (191 mm) e Pilar (170 mm) superaram os maiores volumes registrados nos últimos 30 anos.
- As chuvas que devastaram o Nordeste em 2022 foram cerca de 20% mais intensas por causa das mudanças climáticas, segundo o World Weather Attribution (WWA), rede global de cientistas climáticos.
- As chuvas de maio de 2024 no RS foram mais de duas vezes mais prováveis de ocorrer e entre 6% e 9% mais intensas devido ao aquecimento global.
- A probabilidade de enchentes catastróficas como a de 2024 no RS dobra se a temperatura média global chegar a 2°C acima do nível pré-industrial.
- Desastres causados por chuvas intensas no Brasil aumentaram 222% entre a década de 1990 e os anos 2020-2023, segundo um relatório da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
- Entre 1991 e 2023, mais de 26 mil eventos extremos atingiram 83% dos municípios brasileiros. Em 1990, apenas 27% haviam sido afetados.
- Sul e Sudeste registram chuvas 30% mais intensas do que nas décadas anteriores.
- O El Niño em formação tem mais de 70% de chance de se estabelecer entre maio e julho de 2026, e modelos europeus apontam para um dos eventos mais intensos em 140 anos.





