Os recifes de coral estão sofrendo eventos de branqueamento com uma frequência tão alta que não têm mais tempo para se recuperar antes do próximo. Essa é uma das conclusões de um estudo global divulgado nesta semana sobre a situação dos recifes de coral, atores cruciais para o ecossistema marinho, mas que estão entre os mais ameaçados pelos efeitos das mudanças climáticas nos oceanos.
O relatório da Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN, sigla em Inglês) baseou-se em mais de 40 anos de dados coletados em quase 37 mil recifes de coral em 120 países e territórios. Segundo a análise, os recifes de coral sofreram uma redução de 9,5% entre 2020 e 2024 em comparação com o período de 1980 a 2009. O maior declínio de corais já verificado em um único ano, que afetou 87% dos recifes em todo o mundo, ocorreu em 2024 – o ano mais quente já registrado.
O declínio dos corais está diretamente associado às águas oceânicas mais quentes e à ocorrência mais frequente de ondas de calor marinhas. O aquecimento da água estressa os corais, que perdem as algas simbióticas necessárias à sua sobrevivência – ou seja, ficam brancos. Historicamente, eventos globais de branqueamento de corais ocorriam a cada década. Desde 2010, no entanto, isso tem ocorrido a cada quatro a seis anos.
“Os recifes de coral levam bastante tempo para se recuperar. Estamos falando de décadas para que eles recuperem de fato o que perderam”, observou Manuel Gonzalez-Rivero, pesquisador do Instituto Australiano de Ciências Marinhas e principal autor do relatório, ao New York Times. Para ele, as conclusões do estudo são “alarmantes e graves”, pois indicam um cenário de colapso desses ecossistemas em algumas regiões.
A análise considerou dados de 10 regiões de recifes de coral. Os declínios mais significativos foram observados em quatro delas – Austrália (-11%), Pacífico Oriental (-18%), Caribe (-43%) e a área que vai do Golfo Pérsico ao Mar Arábico (-48,7%). No Pacífico Tropical Oriental, na costa do Brasil e nos Mares do Leste Asiático, não foram identificadas variações significativas. Já no Sul da Ásia e no Índico Ocidental, houve um crescimento de 16,2% e 31%, respectivamente, nos recifes de coral.
“Esse declínio mostra que estamos perdendo grandes porções de coral na maioria dos recifes de coral do mundo – e isso está associado às mudanças climáticas”, ressaltou Emily Darling, diretora de recifes de coral da Wildlife Conservation Society, à CBC.
O pior é que a situação pode ser ainda mais grave do que mostra o relatório, já que ele não considerou os dados coletados em 2025, que ainda sofria os efeitos do aquecimento do ano anterior. Agora, a iminência de um “Super El Niño” está deixando especialistas preocupados com a perspectiva de mais um evento global de branqueamento de corais no ano que vem.
“Precisamos agir agora para deter esse declínio e investir em soluções que reduzam as pressões e aumentem a resiliência”, destacou David Obura, presidente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), à Reuters. “A demora em agir pode resultar em perdas irreversíveis”, completou.
Al Jazeera, Down to Earth, Folha, Oceanographic Magazine e Revista Amazônia também repercutiram o relatório.




