A região do Himalaia corre sério risco de sofrer futuras inundações glaciais, o que afetará a vida de milhões de pessoas. O alerta foi dado ontem (1º/9) por Kanni Wignaraja, subsecretária-geral da ONU e diretora regional para a Ásia e o Pacífico no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No mesmo dia, o total de mortos pela tragédia no Nepal e no Tibete somou 1.066.
Em 2020, pesquisadores identificaram 47 lagos glaciais potencialmente perigosos no Nepal, na China e na Índia, mas estima-se que esse número seja muito maior, destacam Reuters e The Guardian. Assim, há receio de que margens inteiras dos rios, onde vivem milhões de pessoas, tornem-se praticamente inabitáveis devido aos riscos de colapso dessas estruturas.
“A tecnologia não consegue avançar com rapidez suficiente para evitar perdas ao longo desses enormes sistemas fluviais que captam o excesso de água dos lagos glaciais”, disse Kanni. Ela explicou que nenhum país da região depende mais das geleiras para o abastecimento de água e para a geração de renda do que o Nepal, que agora enfrenta “escolhas muito, muito difíceis”. Para muitos que vivem às margens dos rios, mudar-se para terrenos mais altos pode não ser financeiramente viável.
A devastadora enchente da semana passada foi desencadeada quando partes de uma geleira perto do pico da montanha Langtang Lirung desabaram e caíram no fundo do vale, provocando um deslizamento de terra que enviou uma onda de inundação pelo rio Trishuli. Já o rompimento de lagos glaciais é um fenômeno diferente. Ele ocorre quando a água do derretimento das geleiras se acumula atrás de uma barreira natural, com a pressão eventualmente resultando em uma ruptura ou transbordamento que provoca uma inundação repentina rio abaixo.
Contudo, as duas ameaças estão aumentando à medida que as mudanças climáticas aceleram o derretimento das geleiras na região, soltando rochas e exercendo mais pressão sobre as barreiras dos lagos glaciais, dizem autoridades da ONU. Além disso, acrescenta Kanni, as montanhas da região são relativamente jovens e, portanto, mais suscetíveis a movimentos tectônicos que podem desencadear colapsos repentinos de geleiras ou de barreiras lacustres.
Enquanto isso, continuam as operações de busca por quase 4 mil pessoas desaparecidas. Mas a “erosão nas margens dos rios, pontes danificadas, falhas nas estradas e interrupções nos serviços de eletricidade e comunicação” dificultam o acesso de equipes de resgate às áreas mais atingidas, principalmente no norte do Nepal, aponta um relatório da ONU. Segundo a organização, cerca de 10 mil famílias foram afetadas pela tragédia, informa O Globo.
Diversas comunidades nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, gravemente atingidos, enfrentam escassez ou falta total de suprimentos, segundo a Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Risco de Desastres do Nepal (NDRRMA, sigla em Inglês). Nessas áreas, “há escassez de barracas, o que está gerando dificuldades relacionadas ao abrigo”, além da necessidade de suprimentos alimentares, incluindo itens básicos como arroz e lentilha.
Em Katmandu, capital do Nepal, famílias que procuram desaparecidos após as inundações devastadoras da semana passada colocam fotografias numa parede do Hospital Universitário da Universidade Tribhuvan, mostra a Euronews. A parede, com 25 metros de comprimento, está coberta de imagens de nepaleses e estrangeiros, enquanto os familiares se agarram à esperança de encontrar os seus entes queridos com vida.
Lalit Lamichhane, funcionário da alfândega do Nepal, sentiu que ganhou “uma segunda vida” após escapar por pouco da tragédia, relata a CNN Brasil. Ele contou que correu para um terreno mais elevado em uma plantação de milho no dia do desastre; foi resgatado por militares e levado para Katmandu.
No entanto, Lamichhane demonstra um sentimento agridoce, pois lamenta a morte de seu colega e amigo, Nakul Sharma, que trabalhava com ele na Alfândega de Rasuwa, perto da fronteira entre a China e o Nepal. “Sinto uma dor e uma tristeza profundas. Não sei como expressar em palavras a dor de perder um amigo. Perdemos nada menos que 15 amigos, e um deles era o Nakul. Meu coração está repleto de uma tristeza profunda por ter de comparecer à sua cremação hoje para me despedir dele pela última vez”, lamentou.
A tragédia no Nepal continua recebendo ampla cobertura da imprensa mundial, com matérias na Reuters, CNN Brasil, UOL, AP, entre outros veículos.




