Com a probabilidade de mais de 90% – e subindo – de que o El Niño deste ano seja muito forte, economistas fazem novas contas quanto aos efeitos do fenômeno climático no bolso da população brasileira. Cálculos já apontam para aumentos de 15% a 20% nos preços dos alimentos com um “Super El Niño”, pressionando a inflação.
No cenário-base do banco Daycoval, o El Niño acrescenta 4,7 pontos percentuais (p.p.) ao grupo alimentação no domicílio no 1º trimestre do ano que vem, quando se imagina que o fenômeno esteja em seu pico. Destes, 3,6 p.p. são causados pelo efeito “doméstico” – o impacto esperado sobre produtos in natura. O restante (1,1 p.p.) seria o efeito “global”, o impacto sobre os preços das commodities em dólar, explica o Valor.
Ainda no cenário-base do banco, que considera um El Niño “forte”, o efeito sobre a inflação cheia é de 0,8 ponto, elevando o IPCA de 3,8% para 4,7%. Já num cenário mais extremo, a inflação de alimentos poderia saltar para 15,2% de janeiro a março, levando o IPCA cheio a 5,4%.
“O cenário-base é de um efeito similar ao ocorrido em 2015 e 2016 [quando também houve um El Niño classificado como “forte”]. Já o cenário mais extremo leva em consideração a banda superior das projeções da NOAA [Administração Atmosférica e Oceânica Nacional dos Estados Unidos]”, detalha o economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, ponderando que existe grande incerteza nessas projeções, devido ao fato de que não há evento comparável para servir de base.
A ausência de um “evento comparável” justifica-se pelas últimas previsões, que, cada vez mais, apontam para um El Niño de intensidade inédita. Há duas semanas, a NOAA elevou para mais de 90% a probabilidade de um “Super El Niño”, ante 81% na previsão anterior. Além disso, destacou que há 69% de chance do fenômeno de 2026-2027 ser histórico, excedendo a intensidade dos El Niño anteriores, desde 1950. E na semana passada, o Met Office, agência climática do Reino Unido, indicou que o El Niño deste ano pode ser o mais forte em 150 anos.
Já um modelo matemático desenvolvido pelo Rabobank, com base no histórico do El Niño no Brasil, prevê que os alimentos in natura, como carnes e hortaliças, tendem a encarecer mais. Em um cenário de El Niño forte, os preços dessa categoria podem subir 19,9%, enquanto a alimentação no domicílio avançaria 6,3%. Em um evento moderado, as altas seriam de 13,4% e 2%, respectivamente, informam g1, Vero Notícias, AM Post e Diário do Centro do Mundo.
Enquanto isso, a indústria brasileira se prepara para o “Super El Niño”, destaca O Globo. De um lado, a previsão de calor intenso em algumas áreas do país faz com que empresas de diferentes segmentos, do ventilador ao sorvete, antecipem a produção e reforçem os estoques para atender à possível alta demanda. De outro, o risco de chuvas abaixo da média na Amazônia acende um alerta para os fabricantes de aparelhos de ar-condicionado em Manaus. Na Zona Franca, fabricantes temem dificuldades para escoar a produção, caso o nível dos rios seja reduzido pela estiagem.




