A enxurrada trágica causada pelo colapso da geleira que varreu do mapa povoados no Nepal e no Tibete é o mais recente evento climático extremo que escancara a urgência da adaptação climática. Segundo a Reuters, autoridades nepalesas calculam que terão de reconstruir cerca de 20 mil casas destruídas na semana passada, em locais diferentes e mais seguros.
Vista do alto, a área do vale do rio Trishuli, no Nepal, onde equipes de resgate tentam alcançar centenas de trabalhadores presos em hidrelétricas, surge como uma extensão cinzenta e completamente desolada, destaca a Reuters. O solo endureceu como concreto em alguns locais ou transformou-se em uma massa úmida e escorregadia em outros, e não há sinais de assentamentos humanos visíveis em vastas áreas.
O problema é que tragédias como a que aconteceu no Nepal tendem a se repetir com mais frequência e em outras regiões do mundo. A queima de combustíveis fósseis aquece o planeta e torna a neve mais escassa. Com isso, as geleiras de alta montanha, como as do Himalaia, estão recuando e se tornando mais instáveis. O que cria condições para o colapso de grandes porções de gelo, desencadeando avalanches de rocha e gelo capazes de represar vales fluviais antes de liberar enormes ondas de água.
À elevação das temperaturas do planeta soma-se a poluição atmosférica. As geleiras do Himalaia estão cada vez mais cobertas pela fuligem proveniente de escapamentos de carros, termelétricas a carvão, gás fóssil, óleo diesel e óleo combustível, e de fábricas, explicam o New York Times e O Globo. À medida que essa camada escura de poluição se deposita sobre as geleiras, estas absorvem mais calor do sol e derretem mais rapidamente. E, apesar do cenário idílico da fronteira entre o Nepal e o Tibete, a região fica a favor do vento em alguns dos corredores mais poluídos do sul da Ásia.
A natureza transfronteiriça dos riscos glaciais no Himalaia torna a cooperação regional e entre países na preparação para desastres tão urgente quanto a implementação de sistemas de alerta precoce, destaca a DW. No entanto, a tecnologia e a capacidade de adaptação atualmente disponíveis podem ser insuficientes para responder a um desastre da escala do ocorrido. “O que aprendemos com isso é que podemos nos adaptar às mudanças climáticas, mas não a um apocalipse climático”, afirma Shreya K.C., copresidente de um grupo de advocacy da Loss and Damage Youth Coalition, sediada em Katmandu, capital do Nepal.
Enquanto isso, o governo nepalês calcula que os danos causados pelas inundações custarão cerca de US$ 5 bilhões (R$ 25,5 bilhões), o que equivale a 10% do PIB anual do país. Após um apelo do Nepal por financiamento, membros do conselho do novo Fundo de Perdas e Danos da ONU solicitaram uma reunião extraordinária para alocar recursos destinados a ajudar o país, informa o Climate Home.





