Chuvas no Sul e vendaval no Sudeste reforçam desafio da adaptação ao clima extremo no Brasil

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Chuvas no Sul e vendaval no Sudeste reforçam desafio da adaptação ao clima extremo no Brasil

Boa parte do noticiário nacional em julho foi tomada por eventos climáticos extremos: as chuvas das últimas semanas no Rio Grande do Sul, o temporal em Ribeirão Preto (SP) e, mais recentemente, o vendaval em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além das perdas humanas e materiais, esses eventos reforçaram um problema crônico do Brasil neste século: nossas cidades seguem despreparadas para lidar com o clima extremo. 

“Sem dúvida nenhuma, o Brasil não está preparado para enfrentar essa onda de eventos climáticos extremos que já está conosco e só vai se intensificar ao longo dos próximos anos”, comentou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), ao UOL

As dimensões continentais do Brasil representam um desafio à parte no esforço de adaptação climática. Segundo Artaxo, o poder do governo federal nessa questão é relativamente limitado, já que a adaptação deve ser feita em nível local, com os municípios e as comunidades.  

“Nós precisamos de um trabalho conjunto entre as prefeituras, onde a população efetivamente sente os impactos, e dos estados com o governo federal. Há recursos para isso, não é falta de dinheiro, mas certamente muitos municípios brasileiros não estão devidamente preparados para se adaptar ao novo clima”, destacou. 

Em artigo n’O Globo, Carmynie Xavier, do Instituto Clima e Sociedade (iCS), ressaltou que a volta do El Niño a partir do 2º semestre de 2026 servirá como teste para a implementação do Plano Clima, principal estratégia nacional para orientar as políticas de mitigação e adaptação na próxima década. 

“O primeiro grande teste do Plano Clima não será numa conferência, mas na vida real, na sua capacidade de reduzir perdas humanas, sociais e econômicas no próximo ciclo de eventos extremos, como o vendaval de 4ª feira [29/7] em São Paulo e Rio”, pontuou. 

Já o climatologista Francisco Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ressaltou ao Valor que a adaptação climática no Brasil ainda é lenta em termos de infraestrutura e de planejamento urbano, em ritmo muito aquém das mudanças climáticas. Entre as medidas consideradas urgentes estão a ampliação das áreas verdes e arborizadas, a drenagem para o escoamento da água da chuva e a criação de cinturões verdes ao redor das cidades. 

O vendaval no Sudeste é um exemplo de evento extremo que pode se intensificar com as mudanças climáticas. Como O Globo explicou, a ventania foi provocada por um bore ondular, fenômeno que resulta do avanço de uma massa de ar frio e denso sobre outra mais quente estacionária, gerando o choque que provocou os fortes ventos. 

Segundo o meteorologista Ernani Nascimento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o fenômeno gerou fortes ventos pelo próprio avanço do ar frio, como uma frente de rajada, e também pela influência de uma onda de gravidade – o que deu um impulso extra à intensidade do vento. “Esse tipo de fenômeno ocorre eventualmente, mas nunca na magnitude vista agora. O que aconteceu na 4ª feira foi inédito”, disse. 

Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) citados por O Globo mostram que o vendaval foi impulsionado por rajadas com o dobro ou até o triplo da força média. Em Itaporanga (SP), a ventania chegou a atingir 125 km/h; já no litoral sul de SP, como em Itanhaém e Santos, as rajadas superaram 100 km/h. 

No Sul, o tornado que atingiu a região de Giruá na semana passada também é um exemplo de um fenômeno que vem se tornando mais frequente. Como destacou a BBC Brasil, o Brasil é o 2º país com mais tornados: até julho, foram registrados 81 em todo o país, e isso ainda antes do auge da temporada de tornados, que costuma ocorrer entre o fim do inverno e o começo da primavera. 

As áreas mais propensas a tornados no país estão no oeste dos estados do Sul e no Mato Grosso do Sul, mas a ocorrência também pode ser observada em outros estados, como São Paulo. O aumento da frequência desses fenômenos pode estar relacionado a dois fatores: a proliferação de câmeras em celulares, o que facilitou o registro, e as mudanças climáticas, que intensificaram as condições para sua ocorrência. 

“A Terra está passando por um período quente, que faz com que haja aumento dos temporais, dos vendavais, das ondas de calor, e das chuvas fortes também. Consequentemente, muitas vezes, dentro dos temporais, ocorrem essas microexplosões ou tornados”, explicou Francisco de Assis Diniz, meteorologista do INMET.