Eleições: impactos do El Niño entram no radar das campanhas

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Eleições: impactos do El Niño entram no radar das campanhas

A perspectiva cada vez mais concreta de um El Niño de grande intensidade nos próximos meses não foge ao olhar das campanhas presidenciais para as eleições de outubro. Com a chegada do fenômeno, que coincide com o período eleitoral, a expectativa é de que seus impactos se tornem tema de debate entre os candidatos à Presidência, especialmente em questões como agricultura, energia elétrica e infraestrutura urbana.

O Valor contatou as campanhas dos cinco principais presidenciáveis, questionando-as se e como elas estão considerando os efeitos do El Niño em seus respectivos programas de governo. Delas, as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (Missão) enviaram resposta; já a campanha de Ronaldo Caiado (PSD) confirmou que o tema fará parte do programa, mas não forneceu mais detalhes. A campanha do presidente Lula (PT), por outro lado, não retornou contato.

De forma geral, as campanhas reconheceram que os impactos do El Niño serão um problema importante que o próximo governo deverá enfrentar e confirmaram que devem incluir ações nesse sentido em seus programas. Entre as medidas mais comuns, estão investimentos em prevenção e resiliência, além de monitoramento meteorológico.

A campanha de Zema defende um “ajuste fiscal imediato” para que o governo tenha flexibilidade para responder às emergências “sem recorrer a mais endividamento”. Já a campanha de Flávio Bolsonaro focou no seguro rural como um “instrumento estratégico de adaptação climática”. O candidato a vice da chapa do Missão, Aroldo Medina, destacou a necessidade de investir na qualificação de quadros técnicos, “que hoje são praticamente inexistentes”.

Mesmo sem responder enquanto campanha, o presidente Lula já sinalizou preocupação com o El Niño em seu discurso político para as eleições. Nesta 4ª feira (29/7), o governo federal realizou uma reunião com ministros para discutir a resposta oficial aos impactos do fenômeno no Brasil. O Palácio do Planalto prevê risco de quebra das safras de arroz e milho e a necessidade de acionar as usinas termelétricas para compensar a queda nos níveis dos reservatórios das hidrelétricas. Entre as medidas previstas, estão a compra de 310 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho, para aumentar os estoques desses gêneros, e a distribuição de 160 mil cestas básicas e a compra de mais 350 mil para distribuição a grupos vulneráveis, como populações indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Segundo a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, os gastos estão estimados em R$ 1,3 bilhão.

“É inequívoco que haverá o El Niño, bastante provável que ele seja muito forte. Nós já desenvolvemos um conjunto de medidas desde que chegamos, porque um dos assuntos prioritários que o presidente Lula sempre nos orientou é a questão das mudanças climáticas. Desde o primeiro dia, estamos nos preparando cada vez mais para sermos capazes de lidar estrutural e conjunturalmente com esses fenômenos”, disse Belchior, citada pelo Valor. Canal Rural, Correio Braziliense, Band, Exame, Folha, g1, O Globo, SBT, UOL e VEJA também repercutiram a notícia.

O El Niño deve servir como “ponta de lança” para a sociedade civil pressionar os candidatos à Presidência não apenas por respostas aos impactos do fenômeno, mas também à crise climática como um todo. O Valor também abordou a proposta do Observatório do Clima, que apresentou 178 sugestões de ação aos candidatos ao Executivo e ao Legislativo. Além de inserir o tema no debate eleitoral, outro objetivo da iniciativa é conscientizar o eleitorado sobre a importância do voto em candidatos que fortaleçam a proteção do meio ambiente, especialmente no Congresso Nacional.

“A polarização relega as agendas de interesse coletivo ao segundo plano. Esse contexto, somado à realidade de agravamento da crise climática no país, com eventos extremos de grandes proporções cada vez mais frequentes, exige atenção redobrada da sociedade civil brasileira”, afirmou Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do OC.