Ao transformar a destruição ilegal das florestas em argumento formal para impor barreiras comerciais ao Brasil, o governo de Donald Trump demonstra que qualquer retorno do desmatamento em grande escala ao país poderá atingir diretamente o acesso dos produtos brasileiros aos mercados internacionais. Quem diria: o inimigo público número 1 do meio ambiente e do clima reforçou o risco econômico da destruição da vegetação nativa, algo que ambientalistas alertam há tempos.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, voltou ao tema na quarta-feira (22/7), durante uma audiência no Comitê de Finanças do Senado estadunidense. Segundo o Metrópoles e a ADVFN, Greer afirmou que o desmatamento oferece uma “vantagem injusta” aos produtores brasileiros diante dos agricultores norte-americanos e disse que Washington pretende exigir padrões ambientais mínimos em seus acordos comerciais.
A declaração amplia o alcance do argumento: ele saiu das páginas de um relatório técnico e passou a integrar publicamente a política comercial defendida pelo governo Trump no Congresso dos EUA.
O precedente está criado. Em junho, o Escritório do Representante Comercial dos EUA concluiu que o Brasil falhou historicamente em aplicar suas próprias leis contra o desmatamento ilegal, o que teria reduzido custos e ampliado a disponibilidade de terras para a produção agropecuária. Em julho, a acusação foi incorporada à decisão que impôs uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. O documento oficial menciona expressamente a “vantagem comercial injusta” associada ao desmatamento.
A imprensa mostrou de onde vêm os fatos usados contra o Brasil. A Folha destacou que o relatório estadunidense cita o pico de desmatamento de 2021, ocorrido justamente durante o governo Jair Bolsonaro, “parça” de Trump, e sob a liderança do então ministro Ricardo Salles. A Folha ressalta ainda o risco de que os avanços recentes na luta contra o desmatamento sejam jogados por terra por governos futuros. A imprensa internacional, em peso, destacou o argumento usado por Washington. Reuters, AP e Guardian registraram o desmatamento ilegal entre as justificativas comerciais.
Cada aumento do desmatamento oferece munição pronta a governos e a setores econômicos interessados em restringir a importação de produtos brasileiros. Essa munição pode assumir a forma de tarifas, exigências adicionais de rastreabilidade, restrições sanitárias disfarçadas ou bloqueios privados por parte de importadores e investidores. O argumento dos EUA pode ser seletivo, oportunista e repleto de contradições. Mas o efeito econômico desse argumento no Brasil continua sendo real.
Quando foi apresentada por ambientalistas décadas atrás, a meta de zerar o desmatamento foi tratada como radical, inviável e contrária ao desenvolvimento. Hoje, é parte oficial da política climática brasileira sob o governo Lula e a gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), sendo também crítica para a proteção da economia nacional.
Seu cumprimento defende principalmente a agropecuária e a mineração, setores expostos a cadeias internacionais, bem como a reputação do país como fornecedor confiável de quaisquer produtos. Por isso, o Brasil precisa chegar a 2030 com resultados verificáveis, fiscalização permanente e garantias de que nenhum governo provocará outra explosão de destruição florestal.
Nesse contexto, decisões do Congresso que estimulam novas ocupações e reduzem áreas protegidas também assumem o caráter de sabotagem econômica. Um exemplo dessa atuação é o Senado, que acaba de aprovar a retirada de 486 mil hectares, quase 40%, da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, abrindo espaço para exploração agropecuária e para a regularização de ocupações e atividades minerárias. A medida segue para sanção presidencial.
O desmatamento é um crime que não compensa, nem mesmo financeiramente. O Brasil conhece o custo da devastação ambiental porque já paga um preço altíssimo por ser um país tropical cuja estabilidade climática depende da conservação de seus ecossistemas. Agora, começa a reconhecer também o mecanismo comercial que seus concorrentes estão dispostos a usar.





