Investimento na transição ecológica é menor que custo da inação climática no Brasil

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Investimento na transição ecológica é menor que custo da inação climática no Brasil

Manter os modelos atuais de produção de energia e agroalimentar no Brasil custa mais caro, ano após ano, do que o total de investimentos necessários até 2050 para promover a transição ecológica nesses setores. Contudo, para que tal transição seja de fato transformadora, é preciso que ocorra em bases justas, de forma coordenada e integrada. Caso isso não aconteça, o Brasil corre o risco de reproduzir modelos econômicos historicamente produtores de desigualdade sob o selo de “sustentabilidade”, criando um neoextrativismo verde.

É o que revela o estudo “Cenários e custos da transição ecológica no Brasil – As interdependências entre a transição energética e a transição agroalimentar e os riscos de um neoextrativismo verde”, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e do ClimaInfo. O estudo foi lançado na 4ª feira (26/8).

A pesquisa aponta que os custos sistêmicos do modelo agroalimentar atual giram entre US$ 410 bilhões e US$ 526 bilhões (R$ 2,1 trilhões a R$ 2,7 trilhões) por ano. Já a transição do setor exigiria um investimento acumulado de US$ 268 bilhões a US$ 511 bilhões (R$ 1,4 trilhão a R$ 2,6 trilhões) até 2050, destaca a Exame.

No setor energético, os custos sistêmicos atuais são estimados entre US$ 300 bilhões e US$ 428 bilhões (R$ 1,5 trilhão e R$ 2,2 trilhões) por ano. Contudo, os aportes necessários para a transição até 2050 totalizaram algo entre US$ 597 bilhões e US$ 915 bilhões (R$ 3 trilhões e R$ 4,7 trilhões) – o equivalente a cerca de um ano e meio a três anos dos custos sistêmicos do modelo atual, detalha a Página 22.

O estudo apresenta diferentes caminhos para a transição ecológica brasileira e reforça que as transformações nos sistemas energético e agroalimentar precisam ser pensadas de forma integrada. A análise parte do entendimento de que energia, produção de alimentos, uso da terra, biodiversidade e exploração de minerais críticos fazem parte de um mesmo sistema. Decisões tomadas nessas áreas têm impactos sobre as demais e exigem maior coordenação entre políticas públicas, investimentos e planejamento territorial.

A análise aponta que adiar uma transição ecológica implica custos adicionais ecológicos, biofísicos, econômicos, sociais e fiscais. “O levantamento  mostra que os custos da inação, de continuar fazendo as coisas como fazemos hoje, já são muito maiores do que os investimentos em uma transição melhor”, destacou Arilson Favareto, pesquisador do CEBRAP e um dos autores do estudo. “Apresentamos alguns caminhos para passar do cenário inercial em que estamos agora, para um cenário mais desejado.”

Os autores da pesquisa destacam que a comparação de valores não significa que os investimentos na transição seriam recuperados financeiramente nesse período. Ela mostra, porém, a dimensão dos custos econômicos, ambientais e sociais de manter as trajetórias atuais e reforça a viabilidade econômica de uma transformação de longo prazo.

Um dos principais alertas do estudo é que a transição ecológica não será necessariamente justa e sustentável apenas porque envolve atividades de baixo carbono. Sem coordenação, o Brasil corre o risco de manter uma economia concentrada na exportação de produtos primários, agora incorporando novas atividades associadas à economia verde. O relatório identifica a possibilidade de formação de um padrão de especialização baseado em agro, energia e minerais, caracterizado como “neoextrativismo verde”.

Nesse cenário, a expansão de atividades necessárias à descarbonização pode reproduzir problemas históricos, como a pressão sobre territórios e recursos naturais, a concentração dos benefícios econômicos e a baixa agregação de valor.

Por outro lado, o estudo aponta que uma transição conduzida de forma integrada pode representar uma oportunidade para o Brasil combinar descarbonização, regeneração ecológica, inclusão social e diversificação produtiva, transformando a agenda climática em uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.

“A transição é viável do ponto de vista econômico e também tecnológico. O que a gente precisa é ter vontade política para conseguir colocar de pé essa transição e, de fato, fazer com que ela seja justa e traga benefícios para a sociedade como um todo”, Carolina Marçal, coordenadora de projetos do ClimaInfo.