Tragédia no Nepal: mudanças climáticas aumentaram risco de colapso de geleiras no Himalaia

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Tragédia no Nepal: mudanças climáticas aumentaram risco de colapso de geleiras no Himalaia

As enchentes-relâmpago que varreram o Himalaia ainda não têm uma causa claramente identificada, mas a hipótese mais provável é que tenham sido causadas pelo colapso de uma geleira, que despejou um grande volume de gelo, lama e rochas em um rio. E por trás da tragédia estão as mudanças climáticas, que intensificam o derretimento das geleiras e comprometem a estabilidade do solo, facilitando o chamado “colapso glacial”.

Segundo a BBC Brasil, uma análise das autoridades do Nepal indica que o colapso aconteceu no monte Langtang Lirung, próximo ao rio Lhende. Uma grande parte de uma geleira se desprendeu e despencou, gerando uma massa de gelo, água, lama e rochas que provocou as enxurradas. A hipótese é sustentada por observações a partir de imagens de satélite.

Inicialmente, suspeitava-se que um terremoto teria causado as enchentes. Sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registraram um tremor de magnitude 4,4 (depois revisado para 5,2) na região. No entanto, uma avaliação posterior indicou que o tremor teria sido causado pela queda da geleira, e não o contrário. O que dá a dimensão do bloco de gelo que desabou, suficiente para causar uma leitura compatível com a de um terremoto.

“A parte inferior de uma geleira se desprendeu completamente”, disse Jakob Steiner, geocientista da Universidade de Graz, na Áustria, à AP. “Se você observar as imagens, parece que alguém cortou toda a parte inferior com uma faca enorme e ela simplesmente se desprendeu.”

Apesar de não ser possível se estabelecer uma relação direta entre a crise climática e este colapso glacial, os cientistas reforçam que o aquecimento global facilita a ocorrência desse tipo de fenômeno. “As mudanças climáticas estão gerando condições capazes de desestabilizar rochas e gelo em regiões de alta montanha”, afirmou Simon Cox, cientista-chefe do programa Mountains to Sea, do Earth Sciences New Zealand, à Reuters.

Segundo Cox, o aquecimento pode reduzir a sustentação proporcionada pelo gelo em encostas íngremes, aumentar o volume de água do degelo e alterar os padrões de congelamento, descongelamento e precipitação. Isso pode fragilizar as encostas das montanhas e aumentar o risco de grandes desmoronamentos.

O pesquisador Gilvan Sampaio, do INPE, reforça que a tragédia é um alerta do que pode se repetir nos próximos anos devido às mudanças climáticas, destaca o UOL. Para ele, o cenário no Nepal se explica pelo degelo acelerado em regiões vulneráveis à alteração do clima.

“Quando acontecem tragédias como essa, nós não tínhamos visto até então numa dimensão tão grande. Mas o que acontece? Da mesma forma, nós não tínhamos visto um episódio tão intenso de chuvas no Rio Grande do Sul como aquele de 2024. A tendência, a principal mensagem das mudanças climáticas em todo o mundo, é justamente essa tendência de termos cada vez mais episódios extremos. Esse tipo de evento, embora seja muito extremo e nós não tenhamos observado algo semelhante no passado, numa dimensão muito menor, é um alerta do que pode vir aí para os próximos anos e décadas.”

As enchentes deixaram um cenário digno de filme de apocalipse entre o Nepal e o Tibete chinês. As fortes enxurradas causaram a morte de pelo menos 400 pessoas, mas mais de 1,5 mil ainda estão desaparecidas. As áreas mais afetadas foram o vale do rio Trishuli, ao norte de Katmandu, e o vale do rio Bhote Koshi, a leste da capital nepalesa. Já no lado chinês da fronteira, o porto de Gyirong foi atingido por um deslizamento de terra.

As buscas por desaparecidos seguiram na 5ª feira (27/8). Boa parte deles é de turistas estrangeiros, cerca de 700 pessoas, principalmente da Índia, Estados Unidos, Ucrânia, Malásia, Austrália, Reino Unido e Canadá. Muitos dos desaparecidos são peregrinos hindus que viajavam até o monte Kailash, no Tibete.

As condições do terreno, de difícil acesso em várias localidades, são obstáculo às buscas e ao resgate. Outro problema é o risco de novas enchentes: um lago formado por detritos perto da confluência dos rios Chhochen Khola e Purepu Tsangpo, no Nepal, pode colapsar e provocar novas enxurradas na região. Segundo o g1, a previsão é de que outros 3 milhões de metros cúbicos de água cheguem ao lago nos próximos dias. O Globo também abordou a situação.

O desastre no Nepal e no Tibete segue tendo grande repercussão nas imprensas nacional e internacional, com matérias na CNN Brasil, Estadão, Folha, g1, O Globo e Valor, AP, Bloomberg, DW, Financial Times, Guardian, NY Times e Washington Post.