PNUMA: Planeta caminha para aquecimento de 2,8°C até o fim do século

0
29
pnuma:-planeta-caminha-para-aquecimento-de-2,8°c-ate-o-fim-do-seculo
PNUMA: Planeta caminha para aquecimento de 2,8°C até o fim do século

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5oC em relação aos níveis pré-industriais até 2100, apesar da sua superação nos próximos anos, ainda é viável — mas exigirá que o mundo reduza suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em uma proporção inédita. Essa é a conclusão do novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre a lacuna de emissões (Emissions Gap), que aborda a diferença entre a trajetória atual das emissões e o necessário para conter as mudanças climáticas e cumprir as metas do Acordo de Paris.

O quadro é desafiador. O limite de 1,5°C, o mais ambicioso do Acordo de Paris, será inevitavelmente ultrapassado nos próximos meses e anos devido à insuficiência dos cortes de emissões por parte dos países e, em menor proporção, à intensidade do “Super El Niño” que assola o planeta neste momento. Mas ainda é possível limitar esse overshoot e recolocar o mundo no caminho para essa meta. Para tanto, segundo o PNUMA, a humanidade precisa reduzir suas emissões em 20% até 2030 e em quase 50% até 2035.

Porém, a trajetória atual das emissões indica estagnação nos esforços globais de redução no último ano. Os níveis de emissão de 2025 foram, em geral, semelhantes aos de 2024. Na melhor das hipóteses, isso pode indicar um possível pico das emissões, a partir do qual elas começariam a cair nos próximos anos. Mas os cientistas seguem reticentes quanto a isso, dadas as grandes incertezas geopolíticas e a persistente dependência dos combustíveis fósseis.

Como a Folha detalha, a rota atual das emissões aponta para um aquecimento de 2,8oC até 2100. Se as metas climáticas (NDCs) apresentadas pelos países forem cumpridas, o aquecimento ficará em 2,6oC. Já no cenário mais otimista, com mais ambição e esforço das nações, esse limite pode cair para 2,1oC — que, apesar de ser menor do que na trajetória atual, ainda supera os 2oC máximos em relação aos níveis pré-industriais definidos pelo Acordo de Paris e está bem acima de 1,5°C.

O planeta precisa chegar a 2050 com um aquecimento de, no máximo, 1,8oC para viabilizar o limite de 1,5°C ao final deste século, destaca o PNUMA. Ainda assim, isso estaria condicionado à remoção de 320 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (GtCO2e) da atmosfera, seja por meios naturais (como o reflorestamento) ou por novas tecnologias (ainda incipientes e incertas).

“Cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5oC aumentam os impactos e riscos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que assolaram muitas nações neste ano. Portanto, devemos fazer todos os esforços para minimizar o pico do aquecimento e retornar a 1,5oC até o final do século. Isso é possível”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA.

Um obstáculo substancial para obter reduções tão substantivas no curto prazo está no governo anticlimático de Donald Trump nos Estados Unidos. Desde sua volta ao poder, no ano passado, o “agente laranja” não apenas retirou o país do Acordo de Paris e da Convenção da ONU sobre o Clima (UNFCCC), mas também desmontou todas as políticas climáticas domésticas e pressiona outros governos e instituições multilaterais a abandonarem suas metas climáticas. Ao mesmo tempo, a Casa Branca aposta na produção de mais combustíveis fósseis, em contramão dos esforços para reduzir a dependência dessa energia.

“Todos os governos têm um papel a desempenhar, mas, em particular, chegou a hora dos principais produtores de combustíveis fósseis, como os EUA e a Arábia Saudita, que produzem de 20% a 25% dos combustíveis fósseis do mundo, pararem de fazer política e encararem a realidade climática”, cobrou Bill Hare, diretor-executivo do Climate Analytics, no Guardian. “Neste momento, eles estão olhando para o incêndio, negando sua existência e jogando mais gasolina nele, enquanto seus próprios cidadãos enfrentam cada vez mais o calor escaldante, incêndios florestais e outros impactos.”

O relatório do PNUMA sobre a lacuna de emissões foi destacado em vários veículos, com matérias no Capital Reset, CNN Brasil, g1, O Globo, R7 e RFI, além de Bloomberg, CNN, Financial Times, Reuters e Observatório do Clima.