O super El Niño e o superlucro da Petrobras 

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O super El Niño e o superlucro da Petrobras 

Nas últimas semanas, incêndios na Espanha e na França deixaram mais de 300 mil pessoas sem casa. O Canadá chegou a quase 900 focos ativos simultaneamente. Junho foi o mês mais quente já registrado na França, 3,8°C acima da média, numa onda de calor que, segundo os cientistas, seria praticamente impossível sem a queima de combustíveis fósseis. Só na Europa, o calor extremo teria matado cerca de 20 mil pessoas – e a conta está subindo. 

No Brasil, o alerta é o mesmo. INMET e INPE projetam um El Niño que pode chegar à categoria “muito forte” e tem quase 100% de chance de seguir ativo até o início de 2027. Na Amazônia, os rios já começam a baixar, o que pode travar o transporte fluvial e isolar comunidades ribeirinhas. O Nordeste enfrenta estiagem prolongada. O risco de queimadas dispara do Norte ao Centro-Oeste. O Rio Grande do Sul volta a conviver com tempestades e alagamentos. São as mesmas regiões que nunca se recuperaram por completo do El Niño de 2023 e 2024. Foi nesse cenário de eventos climáticos extremos em todo o mundo que a Petrobras, assim como outras petroleiras, divulgou um trimestre de lucro excepcional.

O resultado de abril a junho saiu nesta quinta-feira (06/08): a Petrobras teve R$ 52,4 bilhões de lucro líquido, 96,8% a mais do que no mesmo período de 2025. O que explica o número é a produção recorde do pré-sal somada à disparada do preço do petróleo, impulsionada pela guerra no Oriente Médio. O barril Brent passou de uma média de US$67,82 no segundo trimestre do ano passado para US$ 104,52 neste ano, uma alta de 54%. A companhia bateu recorde na produção própria de petróleo no Brasil, que chegou a 2,7 milhões de barris por dia, e também no uso das refinarias. Vale destacar ainda o crescimento das exportações, que alcançaram quase um milhão de barris por dia no trimestre. Ou seja, o aumento da produção não tem relação com a segurança energética do país. Constitui, na verdade, um dos motores desse lucro fora do comum.

A Petrobras não está sozinha. Segundo a análise do The Guardian, as oito maiores petroleiras do mundo somaram quase US$93 bilhões de lucro entre abril e junho. É quase o dobro dos US$50 bilhões do mesmo período do ano passado, o equivalente a quase R$ 60 mil de lucro por segundo. A Chevron quintuplicou seu resultado e chegou a US$ 12,2 bilhões. A ExxonMobil dobrou o dela, com US$ 14,5 bilhões. A mesma crise que encarece a conta de luz, a comida e o custo de reconstruir uma cidade alagada é a que sustenta esses balanços e engorda a conta bancária dos acionistas. Só neste trimestre, a Petrobras aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, distribuídos a acionistas públicos e privados. Dividendos que quase a totalidade da população do país jamais verá.

Nos investimentos, o primeiro semestre somou US$10,4 bilhões. Desse total, 84,6% foram para o segmento de Exploração e Produção. A área de Gás e Energias de Baixo Carbono recebeu apenas US$ 203 milhões, o equivalente a 1,95% do total, um valor irrisório. E a maior parte desse pouco foi para o gás fóssil, que está longe de ser uma fonte limpa, e não para as renováveis de fato.

A Petrobras é a maior empresa do país, com escala, engenharia e caixa que nenhuma outra tem. É justamente por isso que apostar tudo num ativo em declínio é o maior risco que ela pode correr. O estudo “A Petrobras de que precisamos”, lançado pelo Observatório do Clima em setembro de 2025, mostra que há um caminho financeiramente viável. Começa pelo mais urgente: definir zonas de exclusão em áreas ambientalmente sensíveis e abandonar novos empreendimentos na Margem Equatorial e na Bacia de Pelotas. Passa por ampliar o investimento em biocombustíveis, com controle ambiental e salvaguardas socioambientais garantidas em cada projeto. Inclui também desativar os campos que já esgotaram a vida útil prevista, assumindo o custo desse passivo em vez de terceirizá-lo a empresas menores, sem estrutura para dar conta dele.

Em vez de abrir novas fronteiras de exploração, a Petrobras pode calcular quanto petróleo o país de fato vai precisar nos próximos anos e suprir essa demanda com as áreas que já explora. A produção iria diminuindo aos poucos, concentrada nos setores de difícil descarbonização, e abrindo espaço para ganhos com cadeias produtivas e tecnologias de baixo carbono. Não se trata de desligar a chave de uma hora para outra. Trata-se de parar de apostar o futuro da maior empresa do país num ativo que tende a declinar após atingir o pico nas próximas duas décadas, com o avanço da eletrificação e de novas tecnologias.

A urgência não é abstrata. A mesma seca que baixa os rios da Amazônia esvazia os reservatórios das hidrelétricas, liga as térmicas a gás e empurra a bandeira tarifária para cima na conta de luz de todo mundo. É importante entender que a produção recorde não fica no país: cerca de um terço de tudo o que a empresa extraiu foi exportado. A crise que a Petrobras ajuda a alimentar volta como custo para quem nunca viu um centavo dos lucros da empresa.

A próxima decisão já tem data. Em 7 de outubro, a ANP ofertará 22 setores de blocos exploratórios e 2 setores de acumulações marginais no 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão, além de 13 blocos no 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha. A companhia acabou de anunciar que tem o caixa para seguir outro caminho. Mas a decisão não é só da diretoria: a União é a controladora da Petrobras. Faltam cerca de dois meses. Até lá, quem quer governar o país tem que responder uma pergunta simples. Vai olhar para o passado e usar a maior empresa do Brasil para apostar num ativo em declínio, ou assumir que a crise climática importa e há necessidade de buscar o fim da sua dependência?