Com a possibilidade de um El Niño forte a partir do 2º semestre – somado ao impacto das mudanças climáticas -, cresce o temor de que a tragédia climática como a que atingiu quase todo o Rio Grande do Sul em maio de 2024 se repita. Ainda mais porque um estudo inédito do IBGE mostra que o estado ainda não se recuperou do que aconteceu há mais de dois anos.
A Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS) foi divulgada na 4ª feira (1º/7). A coleta de dados foi realizada pelo instituto entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, em 133 municípios gaúchos. O desastre climático matou 185 pessoas e deixou 23 desaparecidos.
A PEERS estima que 6,3 milhões de gaúchos foram afetados pelas fortes chuvas de maio de 2024 – mais da metade da população do estado à época. Além disso, o total de domicílios nas áreas mais atingidas pelas enchentes é estimado em 2,3 milhões, informa a CNN Brasil.
Segundo a pesquisa, pouco mais de 349 mil pessoas mudaram de endereço por causa das inundações – o equivalente à toda a população de Vitória, a capital do Espírito Santo. Entre os entrevistados, 25% disseram morar agora em domicílios com piores condições do que em maio de 2024. Para 18%, as condições de moradia melhoraram, enquanto 57% disseram estar em moradias semelhantes às que perderam.
Surpreendendo zero pessoas, os dados confirmam que os mais pobres foram os mais atingidos: os danos estruturais nas casas foram mais frequentes na faixa da população que recebe até R$ 2 mil. Embora os domicílios com este nível de renda representem 24,6% do total da pesquisa, são 31,4% dos que tiveram avarias nos imóveis, explica o Matinal.
Dois em cada três gaúchos relataram abalo em sua saúde mental por causa das enchentes. E seis em cada 10 apontaram interrupções no convívio social e com a família em decorrência da tragédia climática.
Segundo o IBGE, mais da metade (55,5%) dos residentes avaliaram algum tipo de dano na estrutura de suas casas após as inundações. Além disso, a grande maioria (88%) dos domicílios apresentou ocorrências causadas pelo desastre climático, principalmente interrupção de fornecimento de água e luz (ambas com 66,3%), informa o Sul21.
Entrevistado pela Folha em 2024, o agricultor familiar Fabio Scheibel, de 43 anos, ainda sente os prejuízos da tragédia climática. Com a destruição causada pela cheia do rio Taquari, ele precisou deixar a sua casa na área rural de Cruzeiro do Sul, a cerca de 120 km de Porto Alegre. Dois anos depois, ele está morando com a família em um imóvel cedido pelos sogros. Para economizar, cortou despesas com planos de saúde.
O agricultor conseguiu retomar a produção de hortaliças com 30% do que era cultivado em sua propriedade antes da tragédia. Ele ainda aguarda melhorias na estrada que o leva até o local de trabalho. “Estamos caminhando, talvez não da forma como esperávamos no início. Os passos são lentos. Estamos reconstruindo as coisas devagarinho.”
Mais do que números e percentuais, o principal retrato obtido com a PEERS é o relato dos impactos do desastre climático pelo olhar das pessoas que o viveram na pele. “A pesquisa contemplou entrevistas diretas com a população, o que até então nunca tinha acontecido. Foram ouvidos os próprios moradores dos domicílios e o desenho da amostra assegurou que fossem contemplados aqueles que estavam localizados nas áreas mais atingidas pelas chuvas. Abordaram o que aconteceu no período, desde os impactos físicos nas suas casas e entorno e evacuação, passando pelos impactos na vida pessoal; citaram a saúde e o atendimento médico durante as inundações, por exemplo; condições de trabalho e estudo, até a avaliação a qualidade vida pós-desastre”, explicou a gerente substituta de Estudos e Pesquisas Sociais do IBGE, Juliana Paiva.
A pesquisa foi noticiada também por GZH, g1, Canal Rural, Valor, O Globo, CBN, Poder 360, O Sul, Metrópoles, Correio Braziliense e Carta Capital.





