Uma ideia cujo tempo chegou

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Uma ideia cujo tempo chegou

Quando o petróleo vira arma, uma ideia que parecia “sonhática” ganha concretude: o mundo precisa abandonar os combustíveis fósseis. O preço explode, a inflação vem junto e países inteiros ficam vulneráveis. A dependência de combustíveis fósseis é um problema de segurança, de economia e de estabilidade global, além de um vetor central das crises climática e ambiental. Os conflitos no oriente médio e na Ucrânia escancararam a armadilha energética global. 

Agora não se discute mais se a dependência de combustíveis fósseis é perigosa e deve acabar. A questão é como. De forma planejada, justa e estratégica — ou de forma caótica, empurrada por crises, guerras e colapsos de mercado. 

Santa Marta é importante porque marca a virada do debate: qual a melhor forma de sair disso na prática? Depois da COP28 de Dubai, em 2023, quando o mundo finalmente reconheceu que precisa “se afastar” dos fósseis, a COP30 de Belém marcou o momento em que parte dos países decidiu se mover antes que os impactos se agravem ainda mais. E esse grupo entendeu que para isso seria necessário construir novos espaços de diálogo, menos dependentes do consenso daqueles que se beneficiam do vício global em fósseis. 

O Brasil respondeu a esse entendimento propondo um novo processo dentro da própria Convenção de Clima da ONU (UNFCCC) —  um “mapa do caminho global”. Esse mecanismo seria elaborado a partir de contribuições de países, setores empresariais e especialistas. E de forma importante, se baseia no que já foi acordado pelos países em mais de 30 anos de negociações climáticas, driblando impasses que hoje bloqueiam avanços. 

As propostas foram enviadas entre os meses de março e abril, e devem tomar boa parte do tempo de trabalho da presidência brasileira, que dura até a próxima COP31, em novembro, na Turquia.  

Já a Colômbia optou por chutar a porta. Se as COPs foram hackeadas pelos interesses fósseis, inviabilizando avanços mais robustos contra a maior causa da mudança do clima e da instabilidade global, o país acredita que outra arena é possível. 

Menor e voltada apenas aos Estados que querem avançar contra a dependência fóssil, a conferência de alto nível de terça e quarta (28 e 29 de abril) em Santa Marta muda o jogo. Ela abre espaço para contribuições mais amplas e menos burocratizadas da sociedade civil. E tenta escapar da influência dos lobistas do petróleo e da complexidade jurídico-diplomática que tem travado as negociações climáticas recentes.

As duas estratégias, a brasileira e a colombiana, já estão produzindo efeito. Independentemente dos resultados formais, que ainda serão organizados ao longo deste ano, ambas respondem a um impulso comum: um novo desejo de independência energética e política dos países.

Uma análise recente de organizações de vários países — incluindo o brasileiro Observatório do Clima — mostra que esse movimento já está em curso, e talvez mais avançado do que parece. Quase 50 países têm planos para eletrificar suas economias. Outros já atuam sobre a oferta e a demanda de fósseis. E uma série de coalizões e iniciativas trabalha, na prática, para transformar essa transição em realidade.

Mas esse movimento ainda esbarra em um ponto cego: nem todo território pode continuar sendo tratado como reserva de exploração. Algumas regiões são simplesmente importantes demais — para o clima, para a biodiversidade, para as pessoas. A Amazônia, o Caribe, grandes áreas costeiras e florestais já estão sob pressão direta da expansão fóssil. Continuar explorando esses lugares é um erro estratégico. 

Por isso, uma das principais pautas em Santa Marta é a ideia de zonas livres de fósseis: áreas onde a exploração precisa parar ou nem começar. 

Para transformar esse tipo de decisão em política concreta, a ciência entra como peça-chave. Desde o balanço global em Dubai, a comunidade científica vem sendo chamada a sair do papel de diagnóstico e entrar no de solução. O novo painel científico lançado em Santa Marta é parte disso: uma tentativa de traduzir o que já sabemos em caminhos práticos, com metas, políticas e decisões que os governos possam realmente implementar.

Santa Marta revela que a ideia de abandonar os combustíveis fósseis deixou de ser uma ambição distante e virou uma resposta prática a um mundo de crises sobrepostas. E como toda ideia cujo tempo chegou, ela já não espera mais consenso para avançar. Isso significa que os países também não podem esperar. Numa transição desordenada, muitos pagam a conta, e na política doméstica esse custo sempre encontra um responsável.