O petróleo tipo Brent – referência do mercado mundial da commodity – quase dobrou de preço nos primeiros 10 dias da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. O barril subiu de cerca de US$ 65 para US$ 119. O preço arrefeceu após o pico, mas continuou escalando e girando em torno de US$ 100. Especialistas já preveem que a cotação pode chegar a US$ 200 se o conflito não acabar – e não há sinais de que isso venha a acontecer.
A recente disparada do petróleo jogou por terra de vez a suposta “segurança energética” associada ao produto. Se o impacto da queima de combustíveis fósseis sobre o clima não tem sido suficiente para demonstrar a urgência de substituí-los por fontes renováveis de energia, a instabilidade dos preços e da oferta colocou em ameaça a economia mundial por causa dessa dependência. Uma conta que, mais uma vez, será maior para países em desenvolvimento e para as pessoas mais pobres.
O Brasil, embora seja exportador líquido de petróleo, depende da importação de gasolina e óleo diesel, derivados cujos preços também subiram devido ao conflito no Oriente Médio. O aumento já chegou às bombas em vários estados do país. Por mais que o governo tenha rapidamente adotado medidas para atacar esse problema, as refinarias privatizadas farão reajustes, e é apenas uma questão de tempo para que essa elevação provoque um efeito em cascata nos preços de alimentos e outros produtos. O resultado: inflação em alta. Novamente, os mais pobres sofrem mais.
Mas o país “parou” na elaboração de seu mapa do caminho para eliminar os combustíveis fósseis. As diretrizes para o roadmap foram encomendadas por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de dezembro do ano passado. Deveriam ter sido apresentadas no início de fevereiro para avaliação pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Quase dois meses depois, porém, nada aconteceu.
O atraso é creditado a divergências entre os quatro ministérios incumbidos por Lula de definir as diretrizes: Fazenda, Meio Ambiente e Mudança do Clima, Minas e Energia e Casa Civil. Não se sabe ao certo quais são os atritos entre as pastas que impedem o avanço da proposta. Contudo, pela defesa ferrenha da exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas feita pelos ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil, é de se supor que a divergência envolva justamente o principal objetivo do roadmap: reduzir a dependência econômica dos combustíveis fósseis do Brasil.
O Ministério de Minas e Energia (MME) tentou esvaziar o mapa do caminho encomendado por Lula, ao propor inseri-lo no Plano Nacional de Transição Energética (Plante). No entanto, mais de dois anos após seu lançamento oficial, o Plante, coordenado pelo MME, permanece apenas uma ideia. Quase nada andou.
O que o MME não esperava era uma crise global que escancarasse o perigo do país aumentar sua dependência de combustíveis fósseis. Ser exportador líquido de petróleo não está salvando o país. Algo que não ocorreria, ou seria bem menos traumático, se já tivéssemos dado passos rápidos rumo ao armazenamento de energia, à eletrificação dos transportes e à calibração da participação dos biocombustíveis na transição energética.
Os benefícios de um mapa do caminho não se restringem à resiliência diante de choques internacionais. Frente a uma crise semelhante, na década de 1970, o Brasil investiu no Pro-álcool e se tornou líder mundial em biocombustíveis. Hoje, as oportunidades são muito mais amplas e abrangem o desenvolvimento e a industrialização focados em diversas tecnologias, como energias renováveis, baterias, grids inteligentes, mobilidade elétrica, combustíveis sustentáveis para a aviação e outras.
O Brasil já é um dos principais atores em várias dessas tecnologias. Um mapa do caminho para eliminar a dependência de combustíveis fósseis pode orientar políticas e investimentos públicos que sinalizem ao setor privado, à academia, à sociedade civil e a parceiros internacionais o rumo que o país pretende seguir.
Como não fizemos o dever de casa até agora, que pelo menos ajamos rapidamente para dar uma resposta estruturada e de longo prazo para esta crise por meio de um mapa do caminho. Independentemente da duração da guerra, depender de petróleo e gás é um péssimo negócio para a economia, a soberania e a segurança energética do Brasil.





