Tragédia no Nepal: geleira que desencadeou enxurrada enfrentou calor incomum

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Tragédia no Nepal: geleira que desencadeou enxurrada enfrentou calor incomum

Cientistas seguem analisando as causas das enxurradas históricas que causaram destruição e mortes no Himalaia há duas semanas. A principal suspeita é de que uma geleira na encosta norte de Langtang Lirung tenha desabado sobre o vale do rio Lhende Khola, perto da fronteira da China com o Nepal, causando as enchentes que resultaram na morte de pelo menos 1,4 mil pessoas nos dois países.

Uma análise de dados meteorológicos feita pelo cientista Robert Rohde, chefe da Berkeley Earth, corrobora essa hipótese. Segundo o levantamento, a temperatura média na geleira da montanha, que fica a uma altitude de 5,2 mil metros, chegou perto de 5oC entre os dias 21 e 26 de agosto, uma temperatura excepcionalmente alta mesmo durante o verão no Himalaia. O calor fora do normal pode ter contribuído para o colapso da geleira.

Segundo Rohde, no local do colapso, a temperatura média registrada nesse período de seis dias aumentou cerca de 1,8oC desde meados do século 20, reflexo das mudanças climáticas e da elevação da temperatura média global nas últimas décadas. Sem esse aquecimento, um padrão de temperatura comparável “provavelmente ocorreria apenas uma vez a cada milhares de anos”, destacou o cientista à AFP.

Imagens de satélite mostram um derretimento significativo da neve nos dias anteriores às enxurradas. “Isso gerou uma fonte considerável de água que pode se infiltrar nas fraturas da montanha e facilitar deslizamentos de terra”, explicou Etienne Berthier, glaciologista do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS, sigla em francês), em fala destacada pela Folha. Apesar disso, os cientistas ressaltam que ainda não é possível ter certeza sobre as causas do desastre. Exame, O Globo e VEJA também repercutiram a análise.

Com chances remotas de acharem sobreviventes, as equipes de bombeiros e militares se dedicam agora à busca por corpos e à reconstrução da infraestrutura básica destruída pelas enxurradas. Imagens aéreas captadas por drones e exibidas pela CNN Brasil mostram a extensão dos danos em Devighat, uma das áreas mais afetadas no Nepal.

Muitas famílias seguem buscando por desaparecidos. Segundo a BBC, ainda restam cerca de 5 mil pessoas cujos corpos e o paradeiro ainda não foram identificados. Muitas delas são estrangeiras, e para seus familiares, a busca por informações é ainda mais difícil. “Fica mais difícil manter o otimismo a cada dia, mas estamos tentando manter a esperança. Talvez a ausência de notícias seja uma boa notícia”, lamenta Prajval Haldia, um jovem britânico cujos pais seguem desaparecidos no Nepal.

Já entre os agentes humanitários que seguem apoiando as vítimas do desastre, o episódio mostrou o impacto dos cortes orçamentários por parte do governo de Donald Trump. O New York Times abordou a falta de ajuda dos Estados Unidos, que enviou apenas US$ 3,6 milhões (R$ 18,3 milhões) para o fornecimento de alimentos, menos da metade dos US$ 10 milhões (R$ 51 milhões) que a antiga Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), desativada por Trump no ano passado, mandou em 2015 ao Nepal depois de um terremoto.