“Super El Niño” pode causar choque nos preços dos alimentos até 2028

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“Super El Niño” pode causar choque nos preços dos alimentos até 2028

Prepare o bolso: o El Niño está chegando com força e deve bagunçar os preços de vários itens alimentícios em todo o mundo nos próximos meses e, possivelmente, nos próximos anos. O Guardian destaca o alerta de economistas e consultorias sobre os impactos potenciais do fenômeno na produção de alimentos, com risco de altas históricas nos preços das culturas mais vulneráveis.

Analistas do Goldman Sachs indicam que um “Super El Niño” poderá provocar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. O impacto não seria imediato, devido à forma como os custos de disrupções climáticas se propagam pela cadeia alimentar global. Assim, as consequências podem levar até o 2º semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”, ou melhor, sentidas no bolso.

O quadro se agrava quando são considerados efeitos colaterais do El Niño que podem afetar o comércio de alimentos, especialmente na parte logística. Condições mais secas podem dificultar o escoamento da produção em áreas que dependem do transporte hidroviário. A escassez de água nas regiões secas também pode dificultar a irrigação das lavouras.

“O El Niño já começou a afetar colheitas, provocando uma estação de monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, avalia o Goldman Sachs.

Outra análise, esta do banco italiano UniCredit, reforça o risco de uma nova escalada global da inflação impulsionada pelo clima. “O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda. As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda neste ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global”, destacou.

Segundo o UniCredit, um cenário extremo de El Niño pode resultar em queda de 14,3% na produção agrícola global, com prejuízo de US$ 343 bilhões (R$ 1,7 trilhão). Os choques nos preços podem ser de 10% a 50% nas principais commodities. Nas culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café -, a alta pode ser ainda mais expressiva, de 50% a 100% ou mais.

“O arroz é o alimento básico para bilhões de pessoas na Ásia, e sua produção depende muito das chuvas sazonais das monções. Se o El Niño interromper essas chuvas, a maior preocupação não será a disponibilidade global de alimentos, mas sim a segurança alimentar e a acessibilidade nos países onde as famílias dependem do arroz produzido localmente”, afirmou Joseph Balagtas, da Universidade Purdue (EUA), à Newsweek.

Para piorar, como destaca a Bloomberg, os efeitos da guerra no Oriente Médio seguem assombrando o mercado global de alimentos. Isso porque o Estreito de Ormuz, bloqueado por Irã e Estados Unidos, é estratégico para o comércio de ureia.

Os preços internacionais dos fertilizantes acompanharam em grande parte a trajetória dos preços do petróleo bruto nos últimos meses. A alta acumulada é de mais de 30% desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.

“Se um evento forte de El Niño ocorrer junto com as interrupções no fornecimento de fertilizantes, os investidores podem enfrentar uma combinação particularmente desafiadora: inflação de preços de alimentos sobreposta à inflação de energia, criando uma pressão dupla sobre as classes de ativos tradicionais”, pontuou David Waugh, gestor da Neuberger Berman, citado pela AgFeed.