Tarifas, guerras e extrema-direita pressionam negociações da COP30, diz Corrêa do Lago

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Tarifas, guerras e extrema-direita pressionam negociações da COP30, diz Corrêa do Lago

Quase uma década após a aprovação do Acordo de Paris, as negociações climáticas da ONU vivem um contexto completamente diferente daquele que permitiu o entendimento entre mais de 190 países na COP21. Hoje, o multilateralismo vive uma profunda crise, impulsionada pela guerra comercial imposta pelos EUA, os conflitos armados na Ucrânia, na Palestina e na África, e o fortalecimento do negacionismo climático capitaneado pela extrema-direita e pelas petroleiras. É esse o cenário de fundo da COP30, que acontecerá no Brasil no final do ano.

“As negociações evoluem muito de acordo com as circunstâncias internacionais, e não preciso dizer que vivemos circunstâncias internacionais particularmente complexas”, reconheceu o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, à Folha.

A ausência dos EUA das negociações climáticas, com sua saída do Acordo de Paris, é um dos reflexos desse contexto de tensões e disputas que pode interferir nos resultados da COP30. “A realidade é que a ausência de um ator tão importante como os Estados Unidos não pode ser boa para a negociação do clima. Afinal, eles são os maiores emissores históricos, estão em segundo lugar no ano de 2025 e, portanto, é muito importante ter um ator tão relevante na discussão”, afirmou Corrêa do Lago.

Junto com o recuo norte-americano, o presidente da COP30 assinalou o impacto da escalada dos gastos militares entre as grandes potências e a guerra comercial iniciada pelos EUA para as conversas em Belém (PA), especialmente na parte de financiamento climático. “A gente passou do negacionismo científico para um negacionismo econômico, ou seja, [a suposição de] que não vale o investimento para combater a mudança do clima”.

Essa avaliação é compartilhada por um importante antecessor de Corrêa do Lago no comando das COPs – o ex-primeiro-ministro francês Laurent Fabius, que presidiu a COP21 em 2015. Em entrevista à Folha, ele reforçou a necessidade de mais colaboração entre os países que seguem engajados na agenda climática, além de maior envolvimento de atores não governamentais e subnacionais nas discussões sobre implementação.

“O multilateralismo está sendo prejudicado pelo aumento das taxas alfandegárias e, é claro, pelos conflitos armados. A força está substituindo cada vez mais o estado de Direito. Essa atmosfera desfavorável torna o esforço ainda mais necessário. É um grande paradoxo: em um momento em que a ação climática é particularmente útil, os números mostram um enfraquecimento”, afirmou Fabius.

Além do contexto internacional, a COP30 também enfrenta uma crise existencial, como Caroline Prolo, Claudio Angelo e Eduardo Viola destacaram na piauí: depois de mais de 30 anos, não há mais o que ser negociado – o que falta agora é implementar os compromissos firmados nessas três décadas. E, nesse ponto, persistem dúvidas sobre a capacidade de entrega do modelo atual de negociação.

“As principais regras de operação do Acordo de Paris – para apresentação das metas, dos inventários de emissões, dos relatórios de progresso das NDCs, para o funcionamento dos mercados de carbono e até mesmo para os objetivos globais de adaptação e financiamento climático – já foram adotadas. Isso traz uma crise existencial para a Convenção: para que servem os convescotes anuais, agora que já negociamos quase tudo o que havia para ser negociado?”.