COP30 em Belém mostra “abismo” de investimentos nas cidades do Norte

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COP30 em Belém mostra “abismo” de investimentos nas cidades do Norte

A realização da próxima Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém fez com que a capital paraense ganhasse visibilidade internacional. A alardeada “COP da Amazônia”, porém, tem surtido efeito também na percepção dos próprios brasileiros, convidados a enxergar o que é, de fato, o território amazônico, e como ele se difere radicalmente da imagem-chavão de “tapete verde”.

“O Brasil tem que saber, e a opinião pública formada no Rio de Janeiro e São Paulo precisam saber, que a Amazônia é urbana. Mais de 70% da população está nas cidades, e existe um abismo gigantesco de investimento em relação às cidades da região e o restante do país”, afirmou Caetano Scannavino, coordenador do projeto Saúde e Alegria e membro do Observatório do Clima ao jornal A Crítica.

“A COP em Belém mostra que se não houver uma atenção a essas cidades que concentram boa parte da população mundial em situação precária, não tem como discutir a questão climática meramente do ponto de vista do carbono, e acho que isso é um ganho”, completa Scannavino.

Quatro dos sete estados da região Norte estão entre os dez com menos investimento público federal entre 2001 e 2020, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O Pará é o único da região entre os dez mais beneficiados, enquanto Rio de Janeiro, São Paulo e Minas lideram em investimentos recebidos.

Essa escassez tem consequências. Como abordou o InfoAmazonia, cerca de 10% da população de Belém, por exemplo, vive em áreas sob risco de desastres hidrogeológicos, como enchentes e deslizamentos, segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do IBGE. Entre 2018 e 2023, a cidade registrou 8 enchentes, com mais de 100 mil pessoas afetadas, 456 desabrigados e um prejuízo estimado em R$ 21,8 milhões.

O governo do Pará anunciou obras em 12 canais para reduzir alagamentos, mas o projeto, iniciado em 1996, já sofreu várias paralisações. Com previsão de conclusão para novembro, a iniciativa é agora promovida como solução para a COP30, mas moradores questionam se resolverá os problemas crônicos.

A capital do Pará estaria, portanto, “reempacotando” obras antigas de macrodrenagem e saneamento como parte do legado da Cúpula do Clima. Enquanto habitantes locais criticam atrasos e veem as ações com ceticismo, especialistas ouvidos pelo jornal O Globo alertaram para a necessidade das construções serem acompanhadas de ações de educação ambiental e gestão territorial para serem eficazes.

Os efeitos são contraditórios: de um lado, intervenções criticadas como a Rua da Marinha (paralisada judicialmente por irregularidades ambientais); de outro, avanços como o Parque da Cidade e a revitalização do Mercado de São Brás. A urbanista Ana Cláudia Cardoso (UFPA) avaliou que, apesar de algumas melhorias concretas, está sendo perdida a chance de alinhar o desenvolvimento urbano com as metas climáticas que a própria COP30 promove.