Vício em gás fóssil pode “enterrar” mais de US$ 220 bilhões em investimentos na Europa

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Vício em gás fóssil pode “enterrar” mais de US$ 220 bilhões em investimentos na Europa

Faça o que digo, não o que faço: UE, que defendeu prazo e pressa para eliminação dos combustíveis fósseis na COP28, quer mais gás fóssil

A União Europeia defendeu, durante a COP28, em Dubai, no ano passado, o estabelecimento de um cronograma para a eliminação dos combustíveis fósseis. O bloco é considerado um exemplo no estabelecimento de regras para preservação ambiental e de combate às mudanças climáticas. Entretanto, algo cheira mal no continente. Mais especificamente, cheira a gás fóssil.

A indústria dos combustíveis fósseis deverá investir mais de US$ 1 trilhão globalmente durante a próxima década na cadeia de gás fóssil para os mercados europeus, mostra uma análise da Global Witness a partir de dados da consultoria Rystad Energy, destacada também pelo oilprice.com. Desse valor, US$ 223 bilhões serão aplicados apenas no desenvolvimento e operação de novas produções do combustível fóssil, segundo a Bloomberg. Isso apesar dos alertas dos especialistas em clima e energia de que qualquer nova produção de combustíveis fósseis irá empurrar o mundo para além dos 1,5°C estabelecidos no Acordo de Paris.

Shell, TotalEnergies, ExxonMobil, Equinor e Eni são as petroleiras que mais investirão na expansão. Juntas, deverão gastar um total de US$ 144 bilhões no fornecimento de gás ao continente europeu nesse período. Além disso, as despesas anuais das 20 principais empresas que produzem para a Europa deverão aumentar em três quartos, de US$ 60 bilhões em 2024 para US$ 105 bilhões em 2033.

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, a UE teve de correr para conseguir fornecedores substitutos para o gás russo devido às sanções comerciais àquele país e também às incertezas acerca de que o suprimento seria mantido. Contudo, a ameaça também virou uma possibilidade de substituir o combustível fóssil por fontes renováveis, o que também foi buscado pelo bloco. Mas ainda assim, a demanda europeia por gás continua grande. E o continente pode sofrer outro duro golpe no suprimento, destacam Bloomberg e New York Times, após a decisão dos Estados Unidos de suspender a instalação de novos projetos de gás fóssil liquefeito (GNL), devido a, entre outros fatores, a “ameaça” climática representada pelo combustível.

“Os números são gritantes. A Europa está trilhando um caminho perigoso ao duplicar a utilização de gás fóssil e precisa de fazer todos os esforços para acabar com a era dos combustíveis fósseis. A Comissão Europeia deve aproveitar a oportunidade para acelerar a saída da Europa do gás e definir 2035 como data limite para eliminar gradualmente este combustível fóssil dispendioso, assolado pela crise e que ferve o clima”, avaliou Dominic Eagleton, ativista sênior de combustíveis fósseis da Global Witness.

Mas, ao que parece, a virada de chave não será tão fácil. Primeiro, porque o gás fóssil voltou a ganhar projeção como combustível de “transição energética”, após o “transition away” estabelecido no Global Stocktake (GST) da COP28. Depois, por ter se tornado alternativa a combustíveis fósseis piores, como o carvão. É o caso da Alemanha, detalha a Bloomberg, que desligou suas centrais nucleares.

Em tempo: Mal sinal: preços mais baixos e maior procura no inverno do Hemisfério Norte deverão impulsionar o consumo global de gás fóssil em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Este ano, a demanda pelo combustível fóssil deverá crescer 2,5%, após um aumento de 0,5% em 2023, afirmou a agência no relatório Gas Market Report Q1-2024, lançado na 6ª feira (26/1). No entanto, informa o oilprice.com, a IEA alertou que os riscos geopolíticos, o aumento das restrições ao transporte marítimo, os atrasos nos projetos de GNL e as condições meteorológicas adversas poderiam reacender as tensões no mercado e levar a uma nova volatilidade dos preços, afetando o mercado do combustível fóssil.

ClimaInfo, 30 de janeiro de 2024.

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