OPEP e agenda verde não nasceram um para o outro

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OPEP e agenda verde não nasceram um para o outro

Em um de seus discursos na COP28, o presidente Lula citou a mitologia indígena sobre o surgimento do Rio Amazonas, um dos maiores do planeta, senão o maior. Segundo a lenda, a Lua teve de abrir mão do seu amor pelo Sol para que a Terra não fosse destruída pelo calor, e suas lágrimas por essa separação formaram o grandioso curso d’água. “Se não deixarmos nossas diferenças de lado em nome de um bem maior, a vida no planeta estará em perigo. E será tarde demais para chorar”, arrematou o presidente.

É inegável que o Brasil chega em Dubai com bons trunfos para ser um de seus protagonistas, e a queda de quase 50% no desmatamento da Amazônia neste ano é o seu principal carro-chefe. Mas, por outro lado, o país não está sendo claro na defesa de um cronograma efetivo para eliminar os combustíveis fósseis do planeta. E nem mesmo em relação à exploração de petróleo na região amazônica, que é defendida por uma ala do governo federal.

Além disso, no exato dia em que a COP28 começou, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, foi um convidado de honra em uma reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). E não só isso: Silveira confirmou que o Brasil foi convidado a ser tornar um “aliado” do cartel que reúne grandes produtores de combustíveis fósseis. E mesmo que o ministro tenha dito que o convite “ainda esteja sendo analisado” e que “participar da OPEP é uma coisa, integrar a OPEP+ [que reúne os aliados] é outra”, a entidade não perdeu tempo e lançou uma nota dizendo que o Brasil entrará no grupo em janeiro de 2024.

Pegou mal. Muito mal. Como pode o país, que chega na COP28 cobrando o compromisso dos países ricos com o financiamento climático a nações em desenvolvimento para ajudá-las em seu processo de descarbonização, entrar num grupo que na semana passada disse que a Agência Internacional de Energia (IEA) estava “difamando” a indústria dos combustíveis fósseis?

Como pode o Brasil cogitar participar de um cartel que quer extrair até a última gota de combustível fóssil do planeta, mesmo sabendo que é a queima desses combustíveis fósseis a principal responsável pela tragédia climática que o planeta vive?

Como pode o país da “agenda verde” e da “transição ecológica” – bandeiras levadas pelo governo brasileiro à conferência do clima –, da defesa das florestas tropicais, que está ciente do risco de savanização da Amazônia por causa das mudanças climáticas causadas pelos combustíveis fósseis, querer estar aliado aos grandes causadores de todos esses problemas?

O ministro Alexandre Silveira é um declarado defensor dos combustíveis fósseis, e diz que o aumento de sua exploração é necessário para “financiar a transição energética”, uma falácia, já que bastaria direcionar os subsídios destinados à indústria do petróleo e gás fóssil para as fontes renováveis para resolver a questão. Diante do que quer representar para o mundo no combate às mudanças climáticas, o país não pode se “aliar” à OPEP. Aliás, o governo nem deveria analisar essa associação, quanto mais deixar nas mãos de Silveira essa avaliação.

Voltando à lenda indígena, é evidente que a OPEP é o Sol cujos combustíveis fósseis nos queimam, e a agenda verde brasileira a Lua que tem de ficar longe dele. Juntos, não combinam.

Que isso fique evidente para o presidente Lula.

ClimaInfo, 1º de dezembro de 2023.

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